Brasil
24 de fevereiro de 2022 Número de novos imigrantes dispara em SC e estrangeiros buscam no Estado recomeço e lar
Mais de 82 mil estão oficialmente cadastrados como moradores no Estado, e veem por lá um bom lugar para viver e escrever novos capítulos nas suas histórias


Flor e a família passaram dois anos em Boa Vista, Roraima, antes de virem para Santa Catarina para construir um novo lar. Foto: Tiago Ghizoni, Diário Catarinense

POR GABRIELA FERRAREZ


Santa Catarina foi sonho ou a necessidade para os 82.024 imigrantes que hoje estão oficialmente registrados como moradores no Estado. Apenas entre 2020 e 2021, cerca de 23 mil novos estrangeiros escolheram o solo catarinense para viver e chamar de lar.


Essa busca de pessoas de fora do país por um novo lugar para viver reflete, também, nos dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) desde 2019: o número de estrangeiros registrados saltou de 5,7 mil para 20 mil, todos integrantes de famílias consideradas de baixa renda.


Percentualmente, o crescimento é de 250%.


Para Flor Solange Aguana Garcia, que há três meses chegou ao Estado, se mudar para Santa Catarina significava encontrar oportunidades melhores para a família.


A venezuelana sofreu violência doméstica e teve que sair da casa própria que vivia com o ex-marido. Ela conta que as dificuldades para pagar aluguel e o salário baixo motivaram a vinda para o Brasil, em 2018. Ao atravessar a fronteira, Flor ficou em Boa Vista, capital de Roraima, no Norte do país.


— Lá (em Boa Vista) se você não tem móveis, você tem que se virar. Em um apartamento que a gente alugou, tinha uma cama pequena. Então coloquei os meus bebês ali para dormir. O senhor que alugava disse que ia colocar o ganchinho para rede, que é comum (na Venezuela), mas demorou três dias. Dormi os três dias no chão — lembra ela.


A venezuelana que atualmente vive em Florianópolis diz que os dois anos que viveu no Norte do país foram de sobrevivência:


— Morei dois anos, sobrevivendo. Tem muitos venezuelanos e poucas vagas de emprego. Então, a gente faz diária, faxina e essas coisas. Mas o aluguel para pagar e as contas são muito mais caros. Então, a gente decidiu se mudar e vir embora para cá.


Desde dezembro de 2021 na capital de Santa Catarina, Flor e a família encontraram na Pastoral do Migrante uma chance de mudar de vida. Ela, o marido, a filha de 11 anos e o filho de cinco anos vieram para a Casa do Migrante, na Capital. O lugar serve de acolhimento para imigrantes que buscam um emprego, trabalho, renda fixa, educação e moradia, e é gerenciado pelo Serviço Pastoral dos Migrantes de Santa Catarina (SPM-SC).


No dia em que falou com a reportagem, Flor estava feliz. A venezuelana tinha acabado de chegar em casa, depois de matricular o caçula na pré-escola. Há poucos dias ela também recebeu a notícia que havia sido contratada para um emprego. Articulada, a mulher fala português com facilidade.


— Vou trabalhar em um restaurante, nas refeições, como auxiliar de cozinha. Gosto muito de cozinhar, mas acho que vou mais ajudar. Mas o que eles me mandarem vou fazer e pronto, né, é o serviço. Fico feliz, sinceramente. Eu estava esperando muito, e graças a Deus veio. Meu marido já trabalha há um mês, como auxiliar em uma empresa de ar-condicionado. Ele não fala muito bem (português), mas se deu muito bem com o pessoal — conta a venezuelana.


Novo caminho a seguir


O tempo da família na Casa do Migrante está próximo de acabar. Com trabalho e educação encaminhados, os venezuelanos se mudarão quando conseguirem um lugar para viver. Agora, Flor quer trazer os demais membros da família, que ainda estão em Boa Vista (RR).


— Estou convencendo eles a mudarem para cá. Até que eles vejam que estou bem, próspera, eles não se atrevem a vir para cá. Mas quando eles virem, vou recebe-los — conta Flor, que lamentou passar o Natal sem a família, pois foi quando surgiu a oportunidade de mudança para Santa Catarina.


Santa Catarina como destino


Flor e a família são quatro dos 17.712 venezuelanos que estão no Estado, e que formam a segunda maior parcela de imigrantes em Santa Catarina. De acordo com números da Polícia Federal (PF), em primeiro lugar estão os haitianos, que somam 30.312 registros como residentes em terras catarinenses.


Nascidos na Venezuela e no Haiti também lideram a quantidade de imigrantes no Cadastro Único, que é um conjunto de informações sobre as famílias em situação de pobreza e extrema pobreza no Brasil. O cadastro possibilita a implementação de políticas públicas por meio de medidas nacionais, estaduais e municipais.


Mesmo com o número de registrados na PF e no Cadastro Único, Emanuely Gestal, assistente de projetos da Pastoral do Migrante em Florianópolis, ressalta que os dados são apenas um recorte, e podem não representar toda a população que migra para Santa Catarina. Nesse caso, Flor e a família representam a exceção à regra.


— É sempre bom lembrar que mesmo o número do Cadastro Único é um recorte. Muitas vezes os imigrantes que chegam não sabem que existe essa possibilidade. Mesmo aqui, os que a gente atende na Casa do Migrante é um recorte bem pequeno da demanda que Florianópolis enfrenta hoje, por exemplo — explica Gestal.


O padre e coordenador da Pastoral do Migrante no Estado, Marcos Bubniak, explica que a maior parte dos estrangeiros que são acolhidos na Casa do Migrante é encaminhada por outras sedes da pastoral no Brasil. Ele ressalta que nem todos têm essa oportunidade:


— Migrantes que chegam de maneira espontânea têm dificuldade em encontrar trabalho. Muitas vezes eles vêm com uma reserva (de dinheiro), conseguem um aluguel e tentam um emprego. Se não conseguem logo, essa reserva se esgota, e eles entram em situação de vulnerabilidade, muitas vezes até em situação de rua — pontua o padre.


O coordenador conta que é comum presenciar famílias grandes que habitam um pequeno espaço, para conseguir pagar o aluguel. Segundo ele, muitas mulheres ficam em casa para cuidar das crianças, e não conseguem contribuir diretamente para a renda familiar.


— Eles vêm com a família, e muitos programas sociais para moradia não abrangem mais de uma pessoa, então eles optam por não se separar e ficam em situação de rua. Ou muita gente vive em um pequeno espaço. Isso acontece especialmente com os haitianos aqui em Florianópolis. Eles se reúnem em bastante gente, onde apenas algumas pessoas têm condições de trabalhar para pagar o aluguel — explica Bubniack.


Os números da Polícia Federal mostram que Santa Catarina presenciou um forte aumento migratório entre 2020 e 2021. A população estrangeira que se mudou para o Estado mais que dobrou, e apenas em 2021, 16.268 pessoas de outros países vieram para terras catarinenses. Um aumento de 128% entre um ano e outro e o maior aumento desde 2001, quando os dados passaram a ser computados.


Terra das oportunidades


Coordenador da Pastoral do Migrante no Estado, o padre Marcos Bubniak diz que o movimento de imigração para Santa Catarina acontece porque muitos enxergam o Estado como a “terra das oportunidades”. Segundo ele, muitos dos que vêm para SC sonham com Florianópolis, mas o maior foco de empregos está em regiões com indústrias, e não na Capital, como mostram os números do Sistema Nacional de Empego (Sine).


As mais de 9 mil vagas de emprego disponíveis pelo Sine-SC no início da última semana estão bem pulverizadas pelo Estado. As 15 cidades que têm os maiores números de oportunidades são: São Miguel D´Oeste (1.654), Concórdia (590), Joinville (406), Dionísio Cerqueira (385), Chapecó (370), Jaraguá do Sul (279), Indaial (276), Brusque (272), Tijucas (268), Tubarão (263), Blumenau (239), Seara (233), Braço do Norte (205), Balneário Camboriú (201) e São Bento do Sul (198).


— A região Sul do Brasil é um atrativo, Santa Catarina de maneira especial, pela quantidade de indústrias. Mas os empregos se concentram na região Oeste, no Alto Vale do Itajaí, no Norte e no Sul do Estado — explica o padre Marcos.


Florianópolis não está nem entre os 15 municípios com mais empregos. No entanto, Bubniak fala que ainda assim, a capital do Estado é o destino preferido de muitos imigrantes.


— Meus colegas me contam que mesmo no Norte, muitos podem não dominar o português, mas falam sobre e sabem o nome “Florianópolis”. Aí vem a frustação de alguns, porque por ser uma capital, com grande atuação turística, existe a impressão de conseguir um trabalho facilmente, rápido, e muitas vezes isso não acontece — conta o padre.


O alfaite Guilove Augustin Payoute, conhecido como Augusto, estava em um shopping de Joinville, no Norte do Estado, renovando os documentos de residência no Brasil no momento em que falou com a reportagem. Além de imigrante, ele coordena a Associação Esperança Viva de Apoio a Haitianos, que tem como objetivo principal ensinar português para quem vem do Haiti e decide viver no município.


— Todo mundo busca uma vida melhor, um lugar que tem uma vida melhor e Santa Catarina é um lugar muito bom para trabalhar. Muitos deles (haitianos da associação) já conseguiram trabalho, quase todos homens. Já as mulheres não conseguem trabalho com facilidade — conta Augusto.


Há dez anos Guilove chegou ao Brasil e construiu a família com a mulher, também haitiana. O filho, de sete anos, aprende agora a língua nativa do pai, o crioulo. Hoje, a sede da associação é a casa de Guilove, que se divide entre o trabalho como alfaite e a organização do projeto.


Ele conta que já foi homenageado pela Câmara de Vereadores de Joinville e que em 20 de novembro de 2019, quando se celebra o Dia da Consciência Negra, recebeu a Medalha Antônia Alpaídes. A honraria é concedida a cidadãos negros de destaque ou que batalhem pela igualdade de direitos. Mesmo assim, ele diz que encontra dificuldades quando se trata de resolver burocracias e conseguir documentos que viabilizem o trabalho da associação.


Entre as prefeituras das três maiores cidades do Estado (Joinville, Florianópolis e Blumenau), os programas para ajudar estrangeiros que chegam ao Brasil com poucos ou recursos limitados são os mesmos que para a população geral. Todos os encaminhamentos para programas sociais do governo federal são feitos a partir do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de cada município.


Nenhuma das três prefeituras possui programa próprio de ensino de língua portuguesa ou ações específicas voltadas para imigrantes.


Tem trabalho para todo mundo


A xenofobia e o racismo podem ser obstáculos para imigrantes em Santa Catarina, avalia a assistente de projetos da Pastoral do Migrante, em Florianópolis, Emanuely Gestal. Foi o caso do senegalês que deve ser indenizado após sofrer uma abordagem truculenta da Guarda Municpal de Florianópolis em 2019 e de Moïse Kabagambe, congolês agredido até a morte após cobrar o próprio salário em quiosque no Rio de Janeiro.


Ela diz que a ideia de que imigrantes “roubam” o trabalho de catarinenses e brasileiros é errônea.


— A xenofobia muitas vezes se dá pela vulnerabilidade social do migrante, existe esse rasgo sociopolítico. A gente vê muito a fala de que imigrantes chegam para “roubar” o emprego de quem é daqui. Mas existem muitas vagas que ninguém ocupa, ninguém quer. Então, o imigrante vai lá e aceita, porque precisa — afirma Emanuely.


Questionado sobre o tema, o padre Marcos Bubniak evoca a história de Santa Catarina para responder:


— O estado de Santa Catarina parece que esquece as suas origens. A gente esquece nossas raízes. Existe a xenofobia, não se pensa que muitos são descendentes de imigrantes que em algum momento precisaram e buscaram uma chance aqui — pontua.



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