Brasil
29 de junho de 2021 Microcrédito fomenta empreendimentos de refugiados e migrantes em São Paulo
A linha de crédito foi lançada pelo Banco do Povo em parceria do ACNUR e já beneficiou 89 pessoas desde o lançamento em 2020


Dominga Antonia atuava como professora na Venezuela e enquanto aguarda regularização de sua documentação profissional, atua como costureira em São Paulo.
 
POR ANA CIPRIANO

 

“Eu quero trabalhar”, afirma Dominga Antonia, venezuelana refugiada que vive no Brasil desde 2016. Essa é a expectativa dela e de diversas outras pessoas refugiadas que chegam ao Brasil, ao serem forçadas a abandonar seus empregos e seus países devido a conflitos e perseguições de diferentes naturezas. Quando chegam no Brasil, enfrentam uma dificuldade comum: o acesso ao mercado de trabalho condizente com suas áreas de formação.

 

Em muitos casos, empreender é a solução encontrada por essas pessoas para bancar o próprio sustento e de suas famílias, já que conseguir vagas de emprego nas suas áreas de especialidade torna-se um processo incerto e burocrático (por requerer a confirmação de suas experiências profissionais ou a validação de seus diplomas de ensino superior).

 

A linha de crédito para pessoas refugiadas e migrantes foi inicialmente lançada pelo Banco do Povo Crédito Solidário (BPCS) em maio de 2020. Desde então, Banco liberou R$ 203 mil para 89 pessoas de diferentes nacionalidades. Mas, foi em outubro de 2020, que com o intuito de facilitar o empreendedorismo entre as pessoas refugiadas e migrantes, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) buscou apoio do BPCS e ambas instituições assinaram um acordo de cooperação que tem como objetivo promover o acesso de pessoas refugiadas e migrantes à inclusão financeira, por meio de empréstimos de microcrédito para empreendedores.

 

Uma pesquisa publicada pelo ACNUR em 2019 constata que a população refugiada no Brasil tem elevada formação acadêmica (mais de 34% concluíram o ensino superior) e que cerca de 80% dos entrevistados afirmam ter disposição para empreender, sendo que 22% já estão em atividades empresariais.

 

Dominga, venezuelana refugiada, por exemplo, era professora de educação infantil aposentada e teve que sair do país porque já não conseguia se sustentar com o que ganhava. Em 2019, participou do projeto Empoderando Refugiadas, momento em que conheceu o trabalho do Banco do Povo.

 

Como ela não podia atuar como professora em terras brasileiras, decidiu tentar o acesso ao microcrédito para investir em equipamentos e materiais de costura. Dominga conseguiu o crédito em agosto de 2020 e já pensa em pedir outra remessa para ampliar seu negócio.

 

“Quando cheguei aqui, já sabia costurar. Mas nunca imaginei que isso que eu aprendi serviria para me sustentar fora do  meu país”, reflete.

 

Uma história parecida é a do refugiado venezuelano Victor Sifontes. Ele chegou ao Brasil com a família em 2019, quando decidiu que era o momento de deixar a Venezuela pelas dificuldades de sustento. Lá, trabalhou durante cinco anos como mecânico perfurador de poços de petróleo, mas quando chegou em São Paulo trabalhou em diversos restaurantes até a decisão de abrir seu próprio negócio. Foi nesse momento que, através de um amigo, conheceu o Banco do Povo e a linha de crédito da instituição.

 

Victor se interessou pelo projeto, ligou ao Banco e pediu uma oportunidade, que foi concedida. Com o microcrédito em mãos, decidiu investir como sócio em um restaurante na capital paulista. No entanto, as dificuldades causadas pela pandemia fizeram com que o empreendedor deixasse o setor alimentício e buscasse novos caminhos. Há cerca de cinco meses, o venezuelano e a esposa investem parte do dinheiro concedido pelo BPCS em uma loja online de roupas femininas.

 

“Todos os dias, aprendo algo novo. Quando cheguei aqui, não sabia nada sobre o preparo de alimentação ou sobre roupas femininas, mas fui aprendendo aos poucos e investindo”, afirma.

 

O diretor executivo do BPCS, Fabio Maschio Rodrigues, explica as razões de conceder empréstimos para essa parcela da população.

 

“Todas as questões ligadas ao desenvolvimento e aperfeiçoamento de negócios por parte de pessoas que têm dificuldade de acesso a serviços financeiros fazem parte da nossa missão. Quando identificamos que existe um público, seja ele brasileiro ou não, que tem dificuldade de acesso a recursos financeiros e que chega ao Banco do Povo como uma alternativa de geração de renda, trabalho e ocupação, percebemos que isso vai ao encontro dos nossos objetivos”, afirma Fabio Maschio Rodrigues, diretor executivo do BPCS.

 

Atualmente, um dos maiores objetivos do BPCS é aumentar a carteira de clientes. O número de pessoas impactadas pela linha de crédito ainda é pequeno, mas o projeto tem grande potencial de crescimento.

 

“Hoje, nossa maior dificuldade é fazer com que essas pessoas nos encontrem. Depois que eles chegam até nós, procuramos entender as dificuldades e as histórias delas para podermos apoiá-los. Mas, em face da pandemia, nossa função é fomentar empreendimentos, sejam eles de brasileiros ou de pessoas refugiadas”, conclui Fábio.

 

Para Paulo Sergio de Almeida, Oficial de Meios de Vida do ACNUR no Brasil, “o acesso ao microcrédito é um meio fundamental para que as pessoas refugiadas empreendedoras possam alcançar soluções sustentáveis para seus negócios, tornando a economia local mais dinâmica e contribuindo para o desenvolvimento do país como um todo”, afirma.

 

O ímpeto pelo empreendedorismo somado à capacidade de prover financiamento para que os projetos de pessoas refugiadas se concretizem é um real mecanismo de enfrentamento ao contexto de dificuldades econômicas, uma estratégia convergente entre ACNUR e BPCS.

 



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