Brasil
25 de março de 2021 Para enfrentar pandemia, refugiados no Brasil se ajudam em iniciativas e redes de auxílio
Com a crise gerada pelo coronavírus, voluntários e ativistas que buscaram refúgio no Brasil oferecem ajuda ao outros imigrantes em situação mais vulnerável. Acnur reforça que saída da pandemia passa pela inclusão e acolhimento dos refugiados.

Projeto capitaneado por refugiados e imigrantes africanos em São Paulo distribuiu cestas básicas a população carente em maio de 2020 — Foto: Divulgação/PDMIG

Projeto capitaneado por refugiados e imigrantes africanos em São Paulo distribuiu cestas básicas a população carente em maio de 2020 — Foto: Divulgação/PDMIG

 

 

POR LUCAS VIDIGAL

 

Para aliviar as dificuldades da vida em um outro país, refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil mantêm redes de apoio e iniciativas que aproximam e acolhem os imigrantes. Neste período de pandemia, esse suporte mútuo se torna ainda mais importante — tanto para conscientizar sobre a prevenção contra o coronavírus como para ajuda em tempos de crise financeira.

 

Uma dessas iniciativas é promovida pela organização não governamental Pacto pelo Direito de Migrar, coordenada por Jean Katumba e com atuação em quatro estados do país. O engenheiro civil de 39 anos saiu da República Democrática do Congo há oito anos, quando procurou refúgio em São Paulo após sofrer perseguição política no país de origem. Agora, durante a crise gerada pela pandemia, ele trabalha para não deixar sem assistência outros refugiados e solicitantes.

 

"A pandemia não inventou uma dificuldade nova: ela exacerbou as que existiam", avaliou Katumba.

 

Como muitos dos refugiados trabalham no mercado informal, as medidas de restrição e a falta de dinheiro circulando deixaram esses imigrantes sem fonte de renda. Como qualquer estrangeiro em situação regular no Brasil, eles têm direito ao auxílio emergencial. Mas a interrupção no pagamento e até a dificuldade em retirar os documentos foram entraves que Katumba ouviu com frequência.

 

"Tentamos ajudar com o mínimo: conseguir dar a eles o que comer. Porque a maioria dos solicitantes e refugiados está na baixa renda", conta o coordenador da ONG.

 

Assim, desde que a pandemia começou há um ano, a Pacto pelo Direito de Migrar arrecada alimentos e coordena campanhas de doações que confortem um pouco a vida dos imigrantes nestes tempos de restrições. Por exemplo, está em andamento uma iniciativa para distribuir ovos de páscoas a crianças estrangeiras. "São filhos de pais que mal têm o que oferecer para comer", comenta Katumba.

 

Iniciativa de arrecadação de alimentos da ONG Pacto pelo Direito de Migrar, em junho de 2020 — Foto: PDMIG/Divulgação

 

Enquanto ajuda os demais, o coordenador da ONG se adapta à rotina diferente nestes tempos de pandemia — como todo brasileiro. Saem os encontros cara a cara, as aulas presenciais de direito que cursa em uma faculdade paulistana. Entram as reuniões virtuais e os deslocamentos mínimos, quase sempre para ajudar os demais.

 

"Nunca aconteceu uma paralisação tão generalizada. O mundo ficou virtual como nunca foi, e isso mexeu com o lado intelectual das pessoas. Tudo ficou on-line."

 

Informar para salvar

 

De origem venezuelana, Mariluz Mariano ajuda indígenas da etnia warao a se conscientizarem sobre a crise da Covid-19 — Foto: Alan Azevedo/Acnur

 

Esse mundo digital, no entanto, não chega para todas as pessoas com a mesma qualidade. Em diversas comunidades, é preciso ir em pessoa comunicar os perigos do coronavírus e a necessidade de se proteger contra a doença.

 

É nesse trabalho de conscientização que a venezuelana Mariluz del Valle Mariano, de 29 anos, encontrou uma forma de ajudar os outros. Ela, que ainda aguarda a obtenção do status de refugiada, participa de uma iniciativa na região metropolitana de Belém (PA) que informa e cuida de dezenas de famílias das etnias warao, grupo indígena venezuelano que se deslocou ao Pará nos últimos anos.

 

"Eu sou uma mensageira. Passo as informações sobre a pandemia à comunidade indígena. Ou seja, falo sobre o uso de máscaras, da importância de evitar sair de casa e da necessidade de se lavar frequentemente as mãos com sabão", conta Mariluz.

 

Venezuelanos da etnia warao recebem informações sobre a pandemia a partir de outros imigrantes e de voluntários de organizações — Foto: Alan Azevedo/Acnur

 

A iniciativa é organizada pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur) em parceria com a Embaixada do Canadá e a Aldeias Infantis SOS. Segundo a voluntária, o trabalho tem surtido efeito: há adesão das medidas de enfrentamento, apesar da resistência inicial de algumas pessoas.

 

"Primeiro quando nós falamos com eles, dizem que é um pouco incômodo. Mas, com o tempo, adotam. Sabem que é obrigação. Eles usam a máscara para sair quando vão comprar algo."

 

Ainda assim, é um trabalho árduo. Como todo o país sofre com a pandemia, o coronavírus chegou às comunidades warao no Pará. A primeira morte por Covid-19 de um indígena desse grupo étnico no estado foi registrada em abril de 2020, e houve surtos em abrigos para essa população.

 

Por isso, Mariluz cobra uma saída para esta pandemia: a vacinação. Por serem indígenas, os warao entraram na prioridade, e aqueles com mais de 18 anos puderam receber as primeiras doses.

 

"Temos que nos cuidar muito. E dizer sim à vacina", pede Mariluz.

 

Refugiados enfrentam crise mais aguda

 

Refugiados venezuelanos em Belém, em foto de maio de 2020 — Foto: Camila Diger/Agência Belém

 

Diante da pandemia global, os problemas vividos por refugiados e solicitantes de refúgio de todo o planeta se tornaram ainda mais críticos. O porta-voz da Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho, afirma que detectou aumento dos casos de discriminação contra esses migrantes ao longo da emergência sanitária mundial. Inclusive com devoluções prematuras aos países de origem.

 

"Além disso, o impacto é muito grande na subsistência dessas pessoas. Alguns atuavam na economia informal, no mundo inteiro, e tudo isso virou de cabeça para baixo com a pandemia", analisa Godinho.

 

Refugiados sírios no Líbano carregam galões de água; foto de 12 de março — Foto: Mohamed Azakir/Reuters

 

E ainda há um entrave que dificulta ainda mais a trajetória de quem precisa de refúgio: segundo a Acnur, não houve reduções dos conflitos pelo mundo durante a pandemia. Houve, na verdade, aumento de 2,5% na violência contra civis. Por outro lado, com fronteiras fechadas como medida de combate à disseminação do vírus, essas pessoas violentadas em seus locais de origem não têm para onde ir.

 

Assim, para o representante da Acnur, as autoridades do mundo todo precisam perceber que não haverá saída para a crise sanitária sem que a população imigrante e vulnerável esteja protegida do vírus e da pobreza decorrente da pandemia.

 

"A ideia de inclusão é a chave para proteger refugiados, deslocados internos e a própria comunidade onde essas pessoas estão. Você só está salvo se todos estiverem salvos", avalia Godinho.



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