África
1 de março de 2021 Guerra está a provocar limpeza étnica em Tigray
Um relatório interno do Go-verno dos Estados Unidos, obtido pelo "The New York Times", revela que forças do Governo etíope e combatentes de milícias aliadas estão a conduzir uma campanha sistemática de limpeza étnica no Tigray, a região no Norte da Etiópia que está a ser devastada por uma guerra que começou em Novembro.

 

O relatório foi elaborado no início deste mês e descreve Tigray como uma região de aldeias desertas e casas sa-queadas, onde se desconhece o paradeiro de dezenas de milhares de pessoas.
Combatentes e soldados da região vizinha de Amhara, que entraram em Tigray com o intuito de apoiarem a ofensiva militar ordenada pelo Primeiro-Ministro etíope, Abiy Ahmed, estão "deliberadamente e eficientemente a levar à capitulação da população etnicamente de Tigray Ocidental através do uso organizado da força e da intimidação”, sublinha o documento do Governo dos Estados Unidos.

"Aldeias inteiras foram gravemente danificadas ou completamente apagadas” do mapa, acrescenta o relatório. Na sexta-feira, a Amnistia Internacional já tinha publicado um relatório no qual revelou que soldados da Eritreia mataram de forma sistemática centenas de civis de Tigray na cidade de Axum durante um período de 10 dias, em Novembro.
O agravamento do conflito no Tigray deverá ser o primeiro grande teste da Administração Biden em África. Ao contrário de Donald Trump, que pouca atenção prestou ao continente e nunca o visitou no seu mandato, Joe Biden prometeu ter uma postura mais participativa.

Na quinta-feira, durante uma conversa telefónica com homólogo queniano, Uhuru Kenyatta, o Presidente dos Estados Unidos abordou a crise em Tigray. De acordo com um comunicado da Casa Branca, os dois Presidentes falaram da "necessidade de evitar a perda de mais vidas e garantir o acesso de ajuda humanitária”.

No entanto, Joe Biden e a sua Administração têm sido relutantes em criticar directamente o Primeiro-Ministro Abiy Ahmed. A conduta do laureado com o Prémio Nobel da Paz em 2019 neste conflito já mereceu, por outro lado, críticas de líderes europeus e das Nações Unidas. Ahmed lançou a ofensiva militar em Tigray no dia 4 de Novembro após meses de tensão com o partido que lidera a região, a Frente Popular de Libertação do Tigray, que governou com pulso de ferro a Etiópia durante quase três décadas até à chegada de Abiy Ahmed ao poder em 2018.

Mas os principais abusos neste conflito não foram cometidos pelo Exército da Etiópia ou pelas Forças de Defesa de Tigray, mas sim por outras forças que apoiam as pretensões de Ahmed nesta guerra.
Nesta altura, os soldados da Eritreia e os combatentes de milícias de Amhara - uma região que tem uma longa história de rivalidade com o Tigray - são quem enfrentam as mais graves acusações de abusos contra civis, incluindo violações, saques e massacres.

Destruição  de fábricas


Um funcionário da Administração interina da região de Tigray denunciou a destruição de fábricas e universidades por tropas de um "país vizinho", durante o conflito que tem afectado a região nos últimos meses. A declaração pública aos órgãos de Comunicação Social estatais etíopes por Alula Habteab, que dirige o Departamento de Construção, Estradas e Transportes da Administração de Transição de Tigray, não especifica a nacionalidade destas tropas, mas surge de-pois de uma crescente preocupação com os alegados actos do Exército da vizinha Eritreia no território, assinala a agência France-Press.

Na quarta-feira, o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a situação dos direitos humanos no país, o sudanês Mohamed Abdelsalam Babiker, solicitou, junto do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, uma investigação às alegações de abusos cometidos por soldados eritreus em Tigray.
"Estou preocupado com as alegações de envolvimento de forças eritreias em graves violações dos direitos humanos, tais como raptos ou regresso forçado de refugiados e requerentes de asilo eritreus, que são posteriormente aprisionados na Eritreia", afirmou então Babiker, citado pela agência noticiosa francesa.

Junto do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, Babiker sublinhou que "tais alegações devem ser rápida e exaustivamente investigadas por mecanismos independentes". A ONU manifestou já preocupação sobre possíveis assassinatos e raptos por parte de soldados eritreus. Residentes em Tigray afirmaram que há várias tropas eritreias na região, que acusaram de abusos e pilhagens. "Estou particularmente preocupado com dois campos de refugiados, que acolheram mais de 25 mil refugiados eritreus na região de Tigray - Hitsats e Shememlba - e que foram, alegadamente, destruídos durante os ataques das tropas eritreias e etíopes entre Novembro de 2020 e Janeiro de 2021", assinalou Babiker.

O sudanês apontou que enviou também uma carta, a 28 de Janeiro, ao Governo da Etiópia na qual exortou o executivo a proteger os refugiados e requerentes de asilo da Eritreia. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, mais de 60 mil pessoas fugiram da violência em Tigray, tendo procurado refúgio no vizinho Sudão.

 

Imprensa Scalabriniana com Jornal de Angola



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