África
10 de fevereiro de 2021 África e a necessidade de reencontro consigo própria
Todo o futuro já foi presente e foi passado. Só o passado nos poderá ajudar a analisar e compreender melhor o presente, uma vez que este é condicionado por aquele, tal como o próximo futuro em relação ao actual presente.

 

POR FILIPE ZAU 

 

Esta necessidade de olharmos para o "retrovisor da vida”, para marcarmos o nosso reencontro com a história e a cultura herdadas da ancestralidade, remete-nos para o endógeno, que nos mostra "como os saberes e os saberes-fazer da África contemporânea são sistemas cognitivos e tecnológicos cumulativos, continuamente reciclados.”

 

A constatação é do filósofo, político e académico do Benin, Paulin J. Hountondji, em «Les savoirs endogènes. Pistes pour une recherche». Para ele, o termo endógeno substitui o termo "tradicional”, que, utilizado de forma espontânea por oposição ao moderno, veicula a ideia obscura de um corte radical entre o antigo e o novo. "Atira, assim, o antigo para um quadro estático, uniforme, sem história e sem profundidade, em que todos os pontos parecem rigorosamente contemporâneos, reservando para a categoria do moderno o prestígio da mudança, ou numa palavra, da historicidade.”

 

Já a propósito de tradicionalidade, o sociólogo Hermano Carmo, em «Desenvolvimento Comunitário» refere que "convém, antes de mais, desmontar uma ideia feita da sociedade industrial, a de que tudo o que é tradição é cristalizado, antiquado, substituível e de que o que se apresenta como novidade, moderno, é em si mesmo bom e adoptável para melhorar a qualidade de vida das populações.” Há que considerar que, nem sempre uma óptica eurocêntrica (entendida, por conseguinte, como moderna e actual) das questões africanas, nos permite conhecer a realidade objectiva com a profundidade de análise exigida, porque, dificilmente, é oferecida aos cientistas sociais africanos a oportunidade de questionar e interpretar o Mundo e África através dos seus próprios olhos.

 

É certo que o cenário dramático que África impede-nos de prever, a curto e a médio prazo, um melhor porvir, já que o cortejo de adversidades e tragédias – genocídios, massacres, guerras civis, deslocados, corrupção, refugiados, fome, epidemias, mortalidade infantil, seca, pobreza extrema, etc., etc... – é grande e persiste em não abandonar o nosso continente. Esta realidade sombria deixa-nos evidentemente tristes e pessimistas, apesar de estas situações serem muito mais promovidas e mediatizadas que quaisquer outras da vida sociocultural africana. Mas temos de pensar no que é melhor para nós mesmos.

 

Pouco ou nada sabemos da realidade histórica africana, do pensamento filosófico dos diferentes povos, das suas artes, da sua literatura oral e escrita, da linguística dos povos bantu, dos valores estéticos, morais e éticos a incorporar como boas práticas educativas, que nos ajudaria muito a conhecer e a compreender melhor o nosso continente. Estes aspectos da vida africana passam, lamentavelmente, ao largo de muita comunicação social, dos currículos e manuais escolares, dos programas académicos e de investigação científica, dos círculos de conferências e colóquios…

 

É de lamentar, que sejam os próprios governos africanos, que, na procura de soluções para o desenvolvimento e modernidade dos seus países, decidam alhearem-se da necessidade de criar uma verdadeira agenda cultural, que permita erguer o baixo sentido de auto-estima dos povos que dirigem, valorizando e dignificando o seu próprio património material e imaterial. A UNESCO refere-se também à necessidade de se estabelecer uma estreita cooperação entre Educação/Cultura/Comunicação, com vista ao desenvolvimento sustentado em África. Frederico Mayor, ex-director geral da UNESCO, advogava assim a sua posição, quando, no início da década de 90, apresentou o Programa de Acção Especial para África.

 

"Na verdade, parece-me surpreendente que seja preciso insistir uma vez mais sobre algo que me parece evidente. Descurar a dimensão cultural do desenvolvimento equivale – e isso aconteceu frequentemente – a querer ter acesso ao desenvolvimento ignorando um dos seus objectivos primordiais, que consiste no desenvolvimento das capacidades individuais e colectivas. Os indivíduos e os grupos visados pelas acções de desenvolvimento não se sentem implicados nem se interessam verdadeiramente pela sua realização, se não tiverem motivações de ordem cultural (promoção de línguas nacionais, defesa das identidades culturais). Convém, portanto, ter em conta as especificidades locais, as mentalidades e a visão do mundo das populações envolvidas.”

 

E refere ainda Frederico Mayor: "de facto, a cultura deve reforçar os conceitos transmitidos sobre autenticidade e conveniência, sem os quais se caminharia para a perda de identidades comunitárias e nacionais. Por seu lado, a comunicação permite que esses mesmos conceitos sejam transmitidos fora do sistema, para além da idade escolar, contribuindo assim para a instauração dum verdadeiro processo de educação permanente, ou até para a sua restauração, visto ser uma realidade que tal processo foi durante muito tempo característica da educação africana tradicional.”

 

Se considerarmos o passado africano como o período anterior às independências, o eurocentrismo, caracterizado inicialmente pela militância da propagação da fé e pela ganância de enriquecimento fácil, transformou as relações de horizontalidade entre povos em situações de subjugação e abriu espaço para a sua aliança com as elites urbanas e rurais, prontas a servir interesses das administrações coloniais: do tráfico massivo em navios negreiros para as terras do Novo Mundo, com consequente despovoamento e transferência de mão-de-obra escrava para outras paragens, à arcaica e assimilacionista colonização, com acções repressivas aos direitos de autodeterminação e independência, há todo um percurso de séculos a superar, mudando mentalidades. É tempo de África se reconciliar e se reencontrar consigo própria.

 

*Filipe Zau

 

Nasceu em Lisboa pois seu pai era marítimo, nascido em Cabinda, e a sua mãe era cabo-verdiana.

Desembarcou em Luanda no dia 1 de abril de 1975. Contacta com músicos portugueses como Fausto, Zeca Afonso e a sua mulher Zélia, Vitorino Salomé ou Sérgio Godinho. Em 1990 vai exercer as funções de adido cultural da Embaixada de Angola, em Lisboa. Em 1996 é gravada a opereta intitulada "O Canto da Sereia: o Encanto" em homenagem ao seu pai e em que foi co-autor com Filipe Mukenga. Nesse ano lança o disco "Luanda Lua e Mulher".

 

Foi músico tocando com grupos como o Duo Ouro Negro. Foi requisitado para a banda "Alerta Está", que dava concertos pelos quartéis. Um dos seus colegas foi o baterista Guilherme Inês (Zoo, José Cid).

 

A cantora Celina Pereira grava "Raiva di vulcão" (letra de Filipe Zau e música de Filipe Mukenga) no seu disco "Harpejos e gorgeios" de 1998. Grava com Celina Pereira o tema "Na breu di nha note" do disco "Estória, estória…: do tambor a Blimundo".

 

Filipe Zau e Filipe Mukenga receberam o prémio Common Ground Music Award 2008, atribuído pela associação Search for Common Ground, em maio de 2008, durante a sessão de apresentação do CD "Angola solta a tua voz", onde os dois músicos também colaboraram. Ambos colaboraram ainda com a Associação Unidos do Caxinde em "Os Nossos Reis", música do Carnaval de Luanda 2008.

É Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

 



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