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26 de janeiro de 2021 E, de repente, as lágrimas...
A cerimônia de inauguração de Biden e Harris tocou certamente a afetividade de muitos brasileiros, que viram ali a esperança de algo semelhante para um futuro próximo

 

 

Maria Clara Bingemer*

 

E qual será a razão de minhas lágrimas? Assistia à cerimônia de inauguration de Joseph Biden como presidente dos Estados Unidos. Havia emoção, alegria discreta, uma liturgia cívica belamente preparada. E a presença das 400 mil vítimas da Covid-19 no país simbolizadas por bandeiras, que tremulavam na manhã luminosamente ensolarada e ventosa.

 

Cultivo uma amizade crítica com o norte da América. Tenho bons amigos e melhores colegas entre eles. Nas vezes em que lá residi em diferentes universidades, fazendo semestres sabáticos e outras atividades acadêmicas, sempre experimentei admiração diante do respeito à liberdade, à democracia, à diferença. São solidários e praticam essa solidariedade. O mesmo acontece com a fé e a religião. Vivi bonitas experiências por lá em celebrações, sobretudo aquelas preparadas pelos latinos. E também nos espaços ecumênicos e inter-religiosos.

 

A realidade vivida por mim no passado não impede que me indignem certas tendências históricas e políticas internas e externas do país. Critico seu imperialismo linguístico, uma certa arrogância que crê poder se apossar de tudo e de todos os ambientes como se seus fossem. No entanto, aprendi a perceber que as feridas maiores da sociedade estadunidense são sentidas com dor por parte dos próprios cidadãos. E quando se comprometem na luta contra elas, o fazem de corpo inteiro. É assim com o racismo, a pena de morte, a questão das migrações e outros problemas maiores.

 

Com a eleição de Trump, o país se fraturou de maneira extremamente negativa. A política agressiva e violenta do ex-presidente afetou a convivência interna do país, mas também e talvez principalmente, sua imagem externa. Respirava-se um ambiente conflitivo e hostil com relação ao que sempre fora o perfil dos Estados Unidos como terra da acolhida e da liberdade. As crianças migrantes, separadas dos pais, habitando jaulas foi uma imagem que marcou o mundo inteiro.

 

Trump foi eleito em 2016. E, em 2018, o Brasil deixou perplexos muitos que vimos a ascensão à presidência de um líder que apresentava perfil semelhante. A pandemia escancarou ainda mais a semelhança do estilo de governar. A tragédia de milhares de vítimas repetiu-se lá e cá.

 

Diante desta realidade, a eleição presidencial nos Estados Unidos, em outubro, era esperada com ansiedade também aqui, ao sul do Equador. Por isso, a cerimônia do dia 20 tocou certamente a afetividade de muitos brasileiros, que viram ali a esperança de algo semelhante para um futuro próximo.

 

A palavra de ordem que vigorou ao longo da cerimônia foi "união". Unir um país fraturado, curar as feridas provocadas pelos radicalismos e ódios. O novo presidente fez seu juramento sobre uma Bíblia antiga, pertencente a sua família há 127 anos. Não era a primeira vez que servia de suporte e garantia ao juramento de serviço à nação de Joseph Biden. Ele usou a mesma Bíblia nas duas vezes em que jurou como vice-presidente de Barack Obama e nas sete vezes em que foi eleito senador pelo estado de Delaware.

 

E, então, de repente senti as lágrimas. Ali cabia emoção de gratidão e esperança. Foi superado um momento difícil e doloroso para todo um povo. A democracia e a liberdade, mesmo ameaçadas até o último minuto, com tentativas de questionar a legitimidade da eleição e com a terrível invasão do Capitólio, venceram. Ali estava o presidente legitimamente eleito iniciando seu mandato.

 

Não será fácil para a dupla Biden-Harris responder todos os imensos desafios que tem pela frente. Há uma pandemia em curso, com um número exponencial de vítimas. Há um país ferido e uma população que vive o luto de mais de 400 mil de seus filhos. Há um tecido social a recompor.

 

Mas há esperança e alegria. Há um futuro possível. Joe Biden teve que superar várias vezes o luto de seres queridos em sua própria vida. Esse aprendizado deverá servir-lhe. Kamala Harris, sendo mulher, negra e de ascendência asiática, já nasceu devendo buscar a vida em cada passo de sua vitoriosa trajetória. Certamente isso fará a diferença em seu trabalho.

 

As lágrimas que correram pelo meu rosto trouxeram a esperança de que o Brasil também possa em breve viver um momento assim. Nosso povo vergado pelas muitas adversidades dos últimos tempos merece acreditar que é possível, continuar lutando, e esperando, e construindo um futuro digno de seu valor.

 

 

*Maria Clara Bingemer

 

é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.



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