Região Hispânica
21 de janeiro de 2021 Honduras: a caravana dos espoliados por direito à vida
Migrantes seguem famintos, sem trabalho, doentes e desesperados em busca do 'sonho americano'

 

  Hondurenhos tentam travessia para os EUA

 

Élio Gasda*

 

281 milhões! Essa é a quantidade de migrantes internacionais. Estão fugindo dos conflitos internos, étnico e religioso, da perseguição, da pobreza extrema, das catástrofes naturais ou degradação ambiental. Os Estados Unidos continuam sendo o destino de 2 a cada 10 migrantes (ONU. Relatório da Divisão de População do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais).

 

Segundo o relatório, a crise da pandemia impactou na subsistência de milhões de migrantes e suas famílias, muitos deles deixaram de mandar dinheiro para casa. Poderá a pandemia, em um segundo momento, fazer crescer ainda mais a onda migratória? Em muitos países a precariedade, a falta de políticas públicas e o descaso das autoridades farão aumentar o desemprego e a fome. 

 

Tragédia humanitária! Na última semana, cerca de 9 mil hondurenhos deixaram o país rumo aos Estados Unidos. Honduras tem 8,5 milhões de habitantes. Destes, 74% vive abaixo da linha da pobreza. Quatro em cada dez hondurenhos não têm dinheiro sequer para comprar comida. O escasso investimento social, a corrupção das elites, a injustiça fiscal radicaliza as desigualdades. A pandemia escancarou o abandono do sistema público, a fragilidade econômica e a violação extrema dos direitos humanos.

 

Honduras foi o segundo país mais afetado por furacões, tempestades e inundações da última década. Em 2020 as tempestades tropicais chegaram ao número de 30. Dois furacões (Iota e Eta) destruíram a região industrial e castigaram severamente 40% da população. Plantações foram perdidas, deslizamentos, 110 pontes e 267 estradas foram danificadas. San Pedro Sula, responsável por 60% do PIB de Honduras, ficou destroçada.

 

A cidade está no estado de Cortés, onde 3 em cada 10 hondurenhos estão infectados pelo vírus.

 

De San Pedro Sula, uma das cinco cidades mais violentas do mundo, saem as caravanas de imigrantes rumo aos Estados Unidos. Quase cem hondurenhos deixam todos os dias suas casas rumo ao 'país das oportunidades'. Dezenas de caravanas fazem o mesmo trajeto desde 2018.

 

Famintos, sem trabalho, doentes, desesperados caminhando dias intermináveis, em busca do 'sonho americano'. "Se tivéssemos dinheiro não estaríamos indo para o norte (EUA). Eles nos tratam como cachorros ..." disse uma mulher a um jornalista (uol/18-01-21).

 

Na Guatemala, essas vidas já dilaceradas foram reprimidas pelo exército e pela polícia com gás lacrimogêneo, cassetetes e varas. Alguns recuaram, outros avançaram. Já sabem que mais violência os espera na fronteira com o México. Mas eles não têm nada a perder.

 

Como serão recebidos os hondurenhos pelos Estados Unidos? Esperanças foram renovadas com Joe Biden. Católico, a oração de sua posse foi feita pelo jesuíta Leo J. O'Donovan, diretor do Serviço Jesuíta de Refugiados (SJR) nos EUA.

 

Em 2017, em carta aberta a Trump, O'Donovan advertiu que entre os muitos desafios estava uma "resposta americana à migração humana". Na carta, o jesuíta destacou: a "acolhida reflete o nosso desejo de responder ao chamado das escrituras judaicas e cristãs a receber entre nós os estrangeiros, especialmente aqueles em perigo ou em grande necessidade. Ela tem origem no reconhecimento de que todos os homens e mulheres possuem uma dignidade humana compartilhada e, aos olhos da fé, são filhos e filhas de um Criador amoroso que nos chama como uma única família".

 

Biden, além de prometer um "um sistema de imigração justo e humano", se responsabilizou "em construir um futuro de maior oportunidade e segurança na região (América Central)". Durante um evento virtual de arrecadação de fundos organizado pelo Serviço Jesuíta para Refugiados, o presidente garantiu elevar o número de novos refugiados a serem recebidos pelos EUA, passando de 15 mil para 125 mil. Que assim seja!

 

Que o desejo da irmandade universal se torne realidade para os hondurenhos: "Reconhecendo a dignidade de cada pessoa, podemos resgatar o desejo universal de irmandade, uma só humanidade, filhos desta mesma terra que nos protege, cada um com sua própria voz, como irmãos" (Fratelli tutti, 8).

 

Segundo papa Francisco, a realidade dos refugiados e imigrantes "é hoje a maior tragédia depois da Segunda Guerra Mundial". Para o pontífice "as pessoas deslocadas nos proporcionam a oportunidade de encontrar o Senhor...: Em cada um deles, está presente Jesus, forçado ?" como no tempo de Herodes ?" a fugir para Se salvar. Nos seus rostos, somos chamados a reconhecer o rosto de Cristo faminto, sedento, nu, doente, forasteiro e encarcerado que nos interpela (cf. Mt 25, 31-46). Se O reconhecermos, seremos nós a agradecer-Lhe por O termos encontrado, amado e servido" (Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2020).

 

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

 

Imprensa Scalabriniana com Dom Total

 



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Imagens da Semana On Monday, January 25, 373 migrants on board the Ocean Viking were disembarked in the port of Augusta in Sicily. The migrants had been rescued from three different small boats in the space of 48 hours.

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