Mundo
30 de março de 2021 Incêndio destrói campo de refugiados rohingyas em Bangladesh
"O que vimos neste incêndio é algo que nunca vimos antes nesses campos. É enorme. É devastador"

Incêndio provoca fumaça negra em um campo de refugiados rohingyas em Balukhali, no sul de Bangladesh, na segunda-feira (22) — Foto: AP Photo/Shafiqur Rahman

 

POR LARISSA FREIRE

IMPRENSA SCALABRINIANA

DA REDAÇÃO - SÃO PAULO

 

Um incêndio, que durou mais de 10 horas no campo de refugiados rohingyas, em Balukhali, no sul de Bangladesh, nesta segunda, 22, consumiu 10 mil barracas, causou 15 mortes e 400 pessoas estão desaparecidas, de acordo com autoridades locais.

 

"O que vimos neste incêndio é algo que nunca vimos antes nesses campos. É enorme. É devastador", anunciou o representante do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados em Bangladesh, Johannes van der Klaauw, a repórteres em Genebra, por meio de um link de vídeo a partir de Daca.

 

Klaauw relatou que 45 mil pessoas estão sendo deslocadas à procura de abrigo provisório. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) prometeu US$ 1 milhão em ajuda imediata e US$ 20 milhões serão necessários para suprir as necessidades mais urgentes.

 

"Criamos uma comissão de sete membros para investigar o incêndio", completou. Os bombeiros conseguiram controlar as chamas na área por volta da meia-noite (horário local).

 

 

Condições precárias

 

Crianças refugiadas rohingya coletam água enquanto ajudam na construção de um poço artesiano em um campo de refugiados perto de Cox's Bazar, em 2018 — Foto: Damir Sagolj/Reuters

 

Quase um milhão de integrantes de minoria muçulmana de Mianmar  vivem em condições precárias em campos do distrito de Cox's Bazar desde que fugiram da repressão militar em seu país em 2017.

 

O incêndio foi o terceiro registrado em campos rohingyas em quatro dias, explicou um oficial do corpo de bombeiros, que não soube determinar as causas dos incidentes. Na sexta-feira (19) dois incêndios destruíram dezenas de abrigos de rohingyas.

 

As autoridades indicaram que o incêndio começou em um dos 34 acampamentos, que incluem mais de 3.000 hectares, e depois se propagou para outros três, o que obrigou os refugiados a fugirem com o que conseguiram salvar.

 

De acordo com a organização Refugees International, as barracas destruídas eram de lona e bambu. "Esta tragédia é uma lembrança terrível da posição vulnerável dos refugiados rohingyas, retidos entre condições cada vez mais precárias em Bangladesh e a realidade de um país agora governado pelos militares responsáveis pelo genocídio que os obrigou a fugir", afirmou a organização.

 

M. A. Halim, diretor de operações em Cox's Bazar do Crescente Vermelho de Bangladesh, disse que está prestando ajuda por meio do fornecimento de alimentos e água, assim como de abrigos de emergência para as pessoas que perderam suas casas.

 

Ele também anunciou que são necessários "esforços ainda maiores" nas próximas semanas, especialmente com a aproximação da temporada de ciclones.

 

O inspetor de polícia Gazi Salahuddin disse que o incêndio ficou ainda mais grave com a explosão de botijões de gás que os refugiados usam para cozinhar.

 

"Este é o maior incêndio desde o fluxo de rohingyas em agosto de 2017", declarou o comissário adjunto para os refugiados, Shamsud Douza. Ele afirmou que alimentos foram distribuídos entre os deslocados. Além disso, voluntários tentam proporcionar todo apoio humanitário necessário.

 

Sayed Ullah, representante dos rohingyas, pediu uma investigação imediata e disse que a natureza dos incêndios gera muita preocupação. "Não sabemos por que estes incêndios se repetem nos campos. Precisamos de uma investigação adequada e completa. Muitas crianças estão desaparecidas, e algumas não conseguiram fugir, devido ao arame farpado nos campos", lamentou.

 

Myo Min Khan, refugiada, também lamentou. “Não conseguimos fugir por causa da cerca. Minha filha menor ficou gravemente ferida”.

 

 

Incêndios frequentes

 

Resultado do incêndio no campo de refugiados rohingyas. Foto: AFP

 

Em janeiro deste ano, aconteceram dois grandes incêndios nos campos, que deixaram milhares de rohingyas sem casas e destruíram quatro escolas construídas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

 

O diretor da Anistia Internacional para o Sul da Ásia, Saad Hammadi, disse que a "frequência dos incêndios nos campos é uma coincidência muito grande, sobretudo, porque não são conhecidos os resultados das investigações prévias sobre os incidentes, e estes se repetem".

 

 

Cercas de arame

 

Pessoas circulam, em 23 de março de 2021, em meio aos escombros do acampamento de refugiados rohingyas devastado por um incêndio em Bangladesh - AFP

 

As autoridades de Bangladesh defenderam na última quarta-feira (24), o uso de cercas de arame nos extensos acampamentos de refugiados rohingyas no sul do país, o que, segundo várias organizações, teria impedido muitos deles de escapar de um incêndio devastador.

 

“Não acredito que essas cercas tenham impedido os esforços de resgate. Há vias suficientes nos acampamentos, e centenas dos nossos funcionários, policiais e voluntários estavam presentes para socorrê-los”, declara o comissário para Refugiados de Bangladesh, Shah Rezwan Hayat.

 

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) e líderes dirigentes rohingyas, as cercas de arame dificultaram o trabalho de resgate e feriram as pessoas que tentavam escapar das chamas, na segunda-feira (22), nos acampamentos de Cox’s Bazar.

 

 

Povo sem pátria

 

Hoje, impedidos de ter progresso social e econômico, eles são considerados apátridas. Foto por ACNUR.

 

Até 2015, antes da crise dos refugiados, em Mianmar, na Tailândia, vivia a maior concentração de rohingyas, minoria mulçumana, no mundo, porém, atualmente, como ainda não são reconhecidos pelo governo do país, muitos foram forçados a deixarem seus lares, tendo direitos como cidadania, movimento e permissão de residência limitada.

 

Hoje, impedidos de ter progresso social e econômico, eles são considerados apátridas.

 

Em vários países, foram marginalizados, sendo perseguidos por motivações étnicas e religiosas e tendo que se refugiar em guetos e favelas, a ponto da Organização das Nações Unidas tê-los nomeado como uma das minorias mais perseguidas do mundo,

 

A última fuga massiva dessa população começou em 25 de agosto de 2017, quando a violência eclodiu no Estado do Arracão, em Mianmar. Segundo a ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), mais de 713.000 refugiados foram forçados a fugir para Bangladesh a partir deste dia.

 

A grande maioria que chegam em Bangladesh são mulheres e crianças, incluindo bebês recém-nascidos. Muitos outros são pessoas idosas que necessitam de ajuda e proteção adicionais.

 

Mais da metade dos novos recém-chegados buscaram abrigo nos arredores e nos campos de refugiados de Kutupalong e Nayapara e em locais improvisados que existiam antes do fluxo.

 

Alguns se juntaram a parentes que já estavam em Bangladesh, enquanto outros são atraídos pela assistência e serviços, fazendo com que as instalações existentes fiquem sobrecarregadas.

 

“Eles queimaram nossa casa e nos expulsaram com disparos. Caminhamos pela selva durante três dias”, declarou um dos refugiados, Mohammed, que foi forçado a fugir para Bangladesh com sua família de sete membros, incluindo um bebê nascido durante a jornada.

 

Novos assentamentos surgiram espontaneamente da noite para o dia, gerando preocupações com a falta de abrigo adequado, água e saneamento. A infraestrutura e os serviços estão sobrecarregados. As aldeias locais também receberam os recém-chegados, sobrecarregando ainda mais os recursos já limitados.

 

A situação continua precária à medida que os refugiados continuam a chegar diariamente. Muitos contam histórias horríveis de violência extrema, feridas e traumas sofridos antes do deslocamento forçado.

 

 

Imprensa Scalabriniana com informações da AFP e ACNUR


 
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