Brasil
29 de setembro de 2020 A mulher em situação de rua: sujeita a todos os tipos de violência
“Temos medo de dormir e não acordar. Morreram de frio do lado da gente, um foi de frio e o outro de overdose.”

 

 Foto: Cláudia Pereira

KARLA MARIA

JORNAL TRECHEIRO

 

Às 4h30 Joyce Aparecida e Suelen Santos começam a desmontar a barraca onde costumam dormir na Praça da Sé, no coração de São Paulo. A praça ainda está escura, mas já agitada, porque é ali, na feira do rolo, que elas buscam itens de sobrevivência, como roupas e sabonete. De lá, o casal segue para a Quadra dos Bancários (Rua Tabatinguera, 192) para tomar um cafezinho doado pelo Movimento Estadual das Pessoas em Situação de Rua.

Joyce, 42 anos, é natural de Santos e subiu a serra com Suelen, 31 anos, para tentar a vida na capital. “Hoje me encontro em situação de rua, mas eu era de Santos e com a pandemia perdi o emprego e não consegui mais pagar aluguel. Tento trabalhar na feira do rolo pra comprar um material de higiene, uma coisa ou outra, só que o rapa vem na grosseria, chuta e leva a mercadoria da gente”.

A renda insuficiente para garantir o próprio sustento e o dos filhos, ao lado de violências sofridas no contexto familiar, estão entre as causas para que as mulheres caiam em situação de rua. Angela (nome fictício), 31 anos, mora em uma barraca com o companheiro na região central. “Você está vendo meu rosto roxo? Ele me bateu. Ele bebe e fica violento, mas eu prefiro ficar aqui com ele a estar sozinha, porque na rua homem nenhum respeita mulher”, conta a jovem. Assim como ela, Paula, 23 anos, também vive nas ruas de São Paulo. Com seu filho Davi de nove meses nos braços e uma gestação de sete, ela deixou Belém (PA) após uma discussão com seu companheiro e desembarcou na capital em plena pandemia de Covid-19.

Arrependida, agora ela tenta voltar a Belém. “Aqui o preconceito é maior que tudo. Hoje eu fui ao posto e a mulher já me mandou passar no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) porque achou que eu era usuária de drogas, mas eu não uso drogas. As pessoas olham pra gente e já estão julgando”. Paula conta que uma assistente social e seus familiares tiraram seu filho. “Davi está com umas pessoas da minha família com quem não falo muito, mas depois de parir este vou voltar para buscá-lo. É meu filho”.

Paula não sabe ler e nem escrever, mas comunica-se com um humor resistente, típico de quem sabe seu valor. “Nós somos seres humanos, estamos aqui não porque queremos, mas porque estamos precisando. Queremos oportunidade, mas somos humilhadas até pela Prefeitura”, conta.

Ela não anda sozinha. Encontrou em Joice e Suelen uma família. “Os caras não querem saber se você está grávida. Outro dia um cara no caminhão parou atrás de mim me chamando para fazer programa. Não sou puta não. Hoje em dia, você tá dormindo e vem homem pra cima de você”.

 

Violência no plural

 

“Temos medo de dormir e não acordar. Morreram de frio do lado da gente, um foi de frio e o outro de overdose. Sabe, essas coisas mexem com o nosso psicológico, e aí você chega em um albergue e te tratam pior, por isso não ficamos lá”, contou Joice que pediu desligamento de um albergue localizado no Belenzinho, depois de se sentir ofendida por uma assistente social. “Nós estávamos no albergue Aparecida, no Belenzinho, só que por conta do preconceito e dos maus-tratos lá de dentro a gente preferiu ficar na rua. A assistente social disse que nós não éramos casal lá, nós fomos roubadas e ninguém tomou providência nenhuma. Eu peguei uma infecção no estômago por conta da alimentação também. O feijão veio azedo e a salada veio com bicho dentro, bem precário mesmo”.

A falta de dinheiro, de água, absorventes, privacidade e um lar são ainda mais cruéis quando se trata da saúde íntima feminina. “A gente corre para o banheiro público, que tem horário determinado. Já aconteceu de eu acordar com sangue e ter de me enrolar em cobertor para chegar até o banheiro”, conta Joice. O mesmo acidente aconteceu no albergue. “Sujou o lençol e mandaram eu lavar e esperar secar para usar o mesmo”.

Ainda soa como tabu para a sociedade, mas mulheres menstruam, e aquelas que estão em situação de rua, precisam de absorventes. Um pacote com oito absorventes, de qualidade duvidosa, dos mais fininhos, sai por R$ 2. “Sem contar as cólicas terríveis que eu sinto, os enjôos, e ter de viver andando assim, neste período, debaixo do sol. A situação de rua estressa a gente, mas minha perspectiva é ter autonomia, trabalho e moradia. Eu tenho fé”.

 Janaína Xavier, 40 anos, já esteve em situação de rua e hoje é moradora da Ocupação Rio Branco. Mãe de nove filhos, a candidata à vereança em São Paulo denuncia que a mulher em situação de rua é sempre desrespeitada. “Você fala não para um homem e ele não aceita. Pra gente que vive na rua há violência de não poder tomar um banho, de não ter um absorvente ou uma calcinha para higienização. Ser gestante e ser de rua é terrível, porque as pessoas não te tratam como ser humano”.

Ela conta uma situação de violência policial a que sua filha de 24 anos foi submetida. “Ao ser abordada pelo policial militar com duas pedras de crack na mão, ele a chamou de traficante e queria colocar a mão nas partes íntimas dela. Ele a levou pra um cantinho e nisso eu cheguei. Ele disse que ia levá-la presa por tráfico. Foi aquela discussão. Até a policial feminina fazer a revista e ver que ela não tinha nada guardado, é isso, não há respeito algum”, desabafa.

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